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sábado, 4 de outubro de 2014

conto: Amor reverso

Hoje o post é diferente não haverá resenha postarei um conto que gostei bastante de uma autora chamada Cristina de Azevedo, pela primeira vez li o gênero fantasia e gostei muito da escrita e da temática bem criativa e profunda,também como dica postei a sinopse do livro espero que gostem.




Amor reverso

O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha.
Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor.
O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
(1 Coríntios 13:4-7)

Se quiser, pode me chamar de covarde. Sinceramente, eu não ligo. Hoje faz um mês que ela chegou e, desde a primeira vez que a vi, foi como se um sol nascesse, aquecendo e iluminando a minha vida. Desde então tenho tentado me aproximar, mas toda vez que estou quase conseguindo, sou dominado por uma timidez tão grande que me faz recuar, o que é muito estranho, porque quando eu era humano nunca tive dificuldade de chegar em uma mulher e declarar o meu interesse.
Agora não entendo o que está acontecendo comigo, não sei se é este corpo ou o fato dela ser a primeira mulher a despertar em mim algum interesse nesta nova vida, ou quem sabe é este sentimento tão intenso. O fato é que agora tenho que lidar com mais esta sensação, porque já faz mais de um ano que recebi meu chamado e até hoje sou surpreendido de alguma forma. E me pergunto se algum dia isso irá mudar.
Para quem não me conhece, eu me chamo Vinícius. Sou um nacquaniano treinado para trabalhar nos campos de algas mágicas e proteger o Forte de Itaipu. Logo que cheguei a Nacqua fui designado para estas funções, mas antes que eu me esqueça de falar: Nacqua é um reino aquático. Isso mesmo, ele fica debaixo da água (você não entendeu errado não!) e está localizado no fundo das Cataratas do guaçu. Doideira pura! E, acredite, aqui vive uma raça muito diferente, que não é conhecida entre os humanos. Espere, você não surtou ainda? Então tenho mais uma: mesmo que ninguém saiba desse lugar, nada impede que um humano receba o chamado. A parada é um tanto esquisita, e o cara surta legal ao ver uma cauda no lugar das pernas e nadadeiras no lugar das mãos, ou quando descobre que agora só se comunica telepaticamente, mas isso não vem ao caso.
Voltando ao assunto... Eu era um humano e fui chamado para esta nova vida, e entre as coisas que me marcaram, e foram muitas, lembro-me do orgulho de ser o primeiro novato a assumir um cargo tão importante, pois as algas mágicas são nossa única fonte de alimentação, e por estar perto da usina, o Forte de Itaipu é o mais produtivo e perigoso também.
Naquele momento achei que nunca encontraria outra coisa que me alegrasse mais do que a vida profissional, no entanto eu estava enganado, pois no instante em que pus meus olhos em Sara descobri que tudo nela me deixava feliz: seu sorriso encantava meus olhos, seu olhar iluminava meus sonhos... Tudo bem, eu admito que estou extremamente romântico e um pouco meloso, mas é o que ela faz comigo, não posso evitar. Fico horas a fio ensaiando como declarar o que estou sentindo para ela e como eu a quero. Como um idiota e um pateta romântico cheio de borboletas no estômago, olho no espelho e penso nas palavras que desejo lhe dizer, mas hoje estou decidido a mudar esta história de uma vez por todas.
Hoje é dia de entrega da colheita mensal, por sorte fomos escalados para trabalhar em equipe. Para me certificar de que realmente trabalharíamos juntos, eu conversei com o encarregado geral. Pensei que ele iria demonstrar alguma resistência, mas me enganei, porque a ideia pareceu agradá-lo, então ficou decidido que faremos a base da frente, enquanto Henrique e Dênis, outros dois colegas de trabalho, fazem a base de trás.
Henrique não trabalha no Forte, ele é responsável pela segurança do castelo de Nacqua, mas às vezes vem ajudar no transporte da colheita, porque acho que fica entediado de ficar lá, e resolve se aventurar; já Dênis, é o irmão de Sara. Ambos chegaram aqui juntos. Não conversamos muito, mas sempre que eu estou perto de Sara, ele curiosamente fica interessado em conversar. Acho que essa é uma maneira que ele encontrou de me manter longe dela, e o pior é que isso está funcionando. Meu plano ia evitar que ele se intrometesse dessa vez.
Para sair do Forte sempre tomamos medidas de segurança, e por isso nossa equipe nunca sofreu nenhum acidente, era uma responsabilidade muito grande, afinal éramos cientes dos riscos que corríamos toda vez que saíamos do forte ou do castelo, e todo cuidado era pouco, mesmo porque nossa equipe é nova, não tem nem cem anos. A última equipe foi inteiramente aniquilada por piranhas, uma tragédia que não pretendemos repetir, então sempre estamos em alerta e tensos até que a missão seja cumprida.
No entanto, hoje em especial, não estou sentindo a habitual tensão e nem estou temeroso. Pelo contrário, não vejo a hora de poder ficar um tempo sozinho com Sara. Não vai ser muito, mas será tempo suficiente para eu diga o que deve ser dito, para que eu declare o meu amor por ela, sem ser interrompido pelo seu irmão, ou por minha própria timidez, e o que eu sinto agora é ansiedade.
Trabalhamos a manhã inteira juntos amarrando a grande rede que carrega toda a colheita. Durante esse trabalho não falei o que desejo dizer, optei por apenas observar sua beleza enquanto reunia força e coragem para quando chegasse o momento certo, então falávamos apenas coisas relacionadas ao trabalho que deveríamos desempenhar juntos. Os minutos que eu passava ao seu lado eram os mais felizes da minha vida, e eu torcia para que demorassem a passar, mas na realidade a coisa é bem diferente, quanto mais gostamos do que estamos vivendo, mais rápido o tempo passa. Quando percebi, a manhã já tinha ido embora e já era hora de pegar a estrada, só depois que saímos é que tentei puxar conversa, soltando a primeira coisa que veio em minha cabeça.
“Você tem namorado?” Era óbvio que ela não tinha, então esta era uma pergunta idiota para se fazer. Que ótima maneira de começar! Quando alguém começa a namorar em Nacqua, tudo é muito rápido. Todos ficam sabendo rapidamente, e logo o namoro se transforma em casamento, porque aqui é o único lugar do mundo em que o amor à primeira vista é verdadeiro e recíproco. Quando existe o sentimento, este quase sempre é correspondido, e quando não é para ser, não existe decepção amorosa, pois segundo o que dizem os antigos, a pessoa morre antes de se decepcionar. Coisa de louco, não? Eles chamam isso de Maldição do Amor Reverso.
“Não, eu não tenho namorado”. Ela deu um sorrisinho que fez o meu coração disparar.
“É que você é tão bonita”. A pele do seu rosto ficou tão corada, o que a deixou ainda mais linda.
“Muito obrigada”, ela tentou disfarçar o embaraço e eu achei uma graça.
Nessa hora escutei Dênis gritar e, mais uma vez, estava me atrapalhando. Argh!!! Ele estava dizendo que um dos nós tinha se soltado, abrindo um grande buraco na rede e estávamos perdendo todo o carregamento. Pensei em pedir para que um deles fosse até lá e arrumasse, mas da maneira como foi, não tinha como saírem de suas posições, além do mais eu era o melhor em fazer nós. Como não tinha outro jeito, soltei uma maldição silenciosa, mesmo sabendo que eu teria que fazer, eu tinha planejado essa tarde de várias maneiras e nenhuma delas incluía esse imprevisto. Suspirei exasperado e Sara rapidamente assumiu as duas pontas. Essa era mais uma qualidade que eu admirava nela, sua capacidade de se fazer útil em qualquer momento. Sara era ótima em tudo e sempre sabia o que fazer.
“Vai lá!”. Sua voz ressoou em minha cabeça.
“Sim, a responsabilidade me chama.”
Demorou alguns minutos para consertar o buraco. Sinceramente, eu não entendia como tinha ido parar ali, porque a rede estava bem trançada. Conferimos várias vezes — esse era um dos descuidos que nunca cometíamos —, pois se parássemos no meio do caminho por qualquer coisa, o perigo aumentava e os ataques eram inevitáveis. Por sorte demorei bem menos do que qualquer um deles. Nessa hora senti um arrepio estranho, como se algo estivesse errado e um medo tomou conta de mim. Suspirei tomando o controle, repetindo para mim mesmo que tudo o que eu estava sentindo era coisa da minha cabeça, já que estava nervoso por estar chegando a hora de me declarar.
Quando eu estava chegando à base da frente, escutei o grito abafado de Sara e, quando vi que ela estava rodeada por piranhas, fiquei apavorado, sentindo um frio na espinha e um pânico que jamais senti na vida.
Em questão de segundos, as piranhas tinham comido quase toda a sua cauda. Eu não aguentava ver aquilo, ver a mulher que amo ser destroçada. Não pensei em nada, somente a vida dela me importava, já que a minha sem ela não fazia sentido. Agora eu sabia disso, pois Sara passou a ser o meu sol e tudo gira em torno dela. O que eu faria sem a minha estrela? Como eu viveria sem meu oxigênio? Eu não queria, eu não podia existir em um mundo onde ela não existisse. Então levado pelo impulso, entrei no meio do cardume e peguei o seu corpo já todo machucado, sentindo em minha alma a dor que ela sentia e a atirei para longe, dizendo as palavras que sempre sonhei.
“Sara, você é a mulher mais linda que eu vi na vida! Nunca conheci alguém tão doce e delicada como o mais lindo botão de rosa pronto para florescer. Sua beleza me encanta! Aconteça o que acontecer, você não pode morrer! Eu te amo, você é tudo para mim!”
Enquanto isso as piranhas encontraram algo novo para devorar: EU! Em segundos fui invadido pela dor física, mas meu coração estava tranquilo. Ainda que eu morra, a parte de mim que pertence a ela, agora ficará segura. Enquanto minha amada viver, estarei vivo através dela! Mesmo com toda aquela confusão, eu consegui me declarar. Até que enfim eu tive coragem de abrir o meu coração.
Quando viram o ataque, Dênis e Henrique vieram em meu auxílio, mas meus olhos não saíam do rosto de Sara. Vi a surpresa diante da minha declaração, porém foi através de um único olhar que eu soube que ela não sentia o mesmo por mim. Mas foi o suficiente para que alguma coisa mudasse dentro mim, como se caísse sobre o meu coração uma tamanha opressão, e com uma velocidade impressionante ela encontrou passagem.
Fui tomado por um ódio que nunca senti em minha vida. Sua força foi tamanha que o amor que eu sentia foi expulso, me deixando sem fôlego. Esse sentimento negativo parecia ganhar força a cada batida do meu coração se irradiando por todas as partes de meu corpo.
Olhei Sara novamente e desejei exatamente o oposto do que há pouco sentia. Agora eu queria que ela sofresse, e a fúria que eu senti me deu força para lutar contra as piranhas. Elas não seriam páreo para mim, pois tudo o que eu desejava era ter minhas mãos ao redor do pescoço de Sara e nada iria me impedir, nem mesmo essas pestes! Eu queria apertar até que não sobrasse mais nada, além de um corpo sem vida. Pensando bem, isso era pouco.
Eu não entendia como ela podia esnobar um amor tão puro, e isso só me deixava mais enraivecido, mas depois de acabar com esse pequeno contratempo eu teria todo o tempo do mundo para pensar qual era a melhor maneira de acabar com ela, pois se Sara não podia ser minha, não seria de mais ninguém!
Eu lutava com as piranhas, sem jamais tirar meus olhos dela, que parecia entender o que eu estava sentindo. Seu olhar aterrorizado fazia com que o veneno que estava em minha alma se inflamasse, aumentando a minha força. E, quando pensei que estava dominado pelo ódio, descobri que havia uma batalha dentro de mim. Sem entender nada, percebi que o amor que eu sentia não se fora como pensei, estava apenas fortalecendo para exigir seu lugar de volta, atacando o meu coração. Então, fui tomado por uma imensa dor que nunca pensei que sentiria, uma pressão enorme, onde o amor tentava sufocar o ódio que tinha se alastrado. Nesse momento comecei a perder para as piranhas. Eu tinha duas lutas para vencer, mas naquele momento a dor das piranhas me estraçalhando não era nada perto da sensação de que, a qualquer momento, meu coração explodiria. Assim que esse pensamento passou por minha cabeça, eu escutei um grande BUM em meu peito, me deixando desnorteado e sem nenhuma reação, me levando a experimentar outro tipo de sensação: o ódio não tinha mais sua bateria ligada, meu coração já não estava ali, então ele foi evaporando e restou apenas o amor.
Agora eu entendia a maldição do amor reverso. Meu corpo estava morrendo, e era estranho saber disso e olhar para o mundo como um espectador, sem ter o controle de mais nada, nem de mim mesmo. Minha mente estava muito lúcida, mas eu sabia o que tinha acontecido no instante em que descobri que não era correspondido. Quando a primeira centelha de tristeza me envolveu, fui tomado pela maldição e uma guerra foi travada no meu interior: uma guerra em que o único perdedor era eu! Nunca houve chance para mim, aceitei minha sorte sem dificuldade e nesse momento entendi que era o melhor.
Ainda assim não consegui me arrepender de amá-la até a última célula do meu corpo, nada era mais importante do que ela, nem a dor que eu estava sentindo a cada dentada das piranhas, nem a certeza de que minha morte era certa, pois nada poderia me salvar. Mesmo que não tivesse as piranhas, tudo estava perdido para mim, porém nem assim eu me arrependi, pelo contrário, só fiquei satisfeito e tranquilo quando vi que Henrique e Dênis chegaram e a socorreram, e quando fizeram menção de vir lutar por mim, minha última voz irrompeu em suas mentes, fraca e sussurrada:
“Não venham, é tarde para mim”. E reunindo as últimas forças que me restavam, eu me dirigi a ela. “Sara, viva por mim. Eu te amo!”.
Agora estava sentindo uma calma que nunca experimentei antes em minha vida, pois a pessoa mais importante do mundo para mim estava segura, e eu podia descansar em paz.
Por fim, sorri intimamente me desprendendo de toda dor e de toda tristeza e, como se estivesse sendo carregado por águas tranquilas, eu repousei. Já não via e nem sentia nada, porque tudo ficou no mais completo silêncio.
NOTA DA AUTORA
Nesse conto vemos os extremos de dois sentimentos muito fortes, na realidade não vivemos uma experiência igual a que Vinícius viveu, mas podemos vivenciar tais emoções em nossa vida. De fato o ódio pode ser um sentimento tão nocivo, que faz mal a saúde e a alma, enquanto o amor verdadeiro, cura e transforma vidas.
A diferença é a maneira que cada pessoa lida com suas emoções, guardar rancor é o que leva muitas pessoas a fazer coisas que normalmente não faria, não é à toa que vemos em nossa sociedade tantas atrocidades, enquanto a cura para tudo seria simplesmente amar o amor em suas diversas formas e maneiras: fraternal, maternal, conjugal. Esse sim é o sentimento capaz de mudar realidades e transformar vidas.
E diferente da história, podemos sempre decidir pelo lado bom das coisas e da vida, ou seja, perdoar, amar, sorrir e ser feliz; e não perder tempo com pensamentos negativos que só atrai coisas ruins e indesejadas. Desejo-lhes toda a felicidade do mundo regada de amor, paz e esperança de um dia vivermos em um lugar onde a cura é usada adequadamente.
Para conhecer melhor o que acontece com os outros personagens do conto, e se realmente o amor de Vinícius não foi correspondido por Sara, leia o livro “Nacqua: O Reino Escondido” e se aventure em uma história fantástica que vai conquistar o seu coração.



SINOPSE:

Existe alguma saída, quando tudo que você mais amou lhe fora roubado?
Depois de vivenciar a morte de seus pais adotivos na adolescência e um casamento frustrado, tudo o que Larissa mais queria era paz, já que nem em seu pior pesadelo imaginou que teria sua vida roubada...
Diante de tais circunstâncias, teve que aprender a viver novamente, e descobre da pior maneira que uma lenda antiga é, na verdade, real. As Cataratas do Iguaçu escondem um grande mistério.E tudo que ela mais ama corre perigo, pois o futuro nem sempre está em suas mãos. Porém, em Nacqua, o amanhã pode não existir.




2 comentários:

cristina de azevedo disse...

Obrigada. Ficou muito lindo o post.

kika kriger disse...

Que bom que gostaste Cristina também gostei muito do conto bjos
Obrigada pela visita, volte sempre

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